A floresta da Amazônia Negra pisou no asfalto sagrado do Carnaval: a noite que a Mangueira vestiu o Amapá de eternidade

Por: Elton Tavares – Escritor, jornalista e amante do Carnaval há quase 50 anos
Eu estava ali, na madrugada que separa o domingo da segunda, quando a última luz da Sapucaí parecia guardar fôlego para algo maior. A Estação Primeira de Mangueira entrou na avenida e, naquele instante, não era apenas uma escola de samba. Era o Amapá inteiro que pisava forte no asfalto sagrado do Carnaval.
Naquele desfile, o samba encontrou sua forma perfeita. A bateria pulsou como coração amazônico. Intérprete e apoio conduziram cada verso com autoridade e emoção rara. Tudo em sintonia absoluta. Técnica e alma lado a lado.

O samba cresceu como rio em cheia. A bateria falou alto, firme, ancestral. O canto veio seguro, conduzido com respeito e beleza. Nada sobrava. Nada faltava.
Foi um desfile clássico. Preciso. Grandioso. Do Oiapoque ao Jari, a riqueza do meu estado brilhou diante do mundo. Mesmo que o resultado oficial diga outra coisa, o Amapá virou vitrine planetária. A floresta ganhou voz. O povo tucuju ocupou o centro da maior festa popular do Brasil.

A Mangueira surgiu lúdica, poética, moderna, elegante. Nada de fórmulas gastas. Fantasias cheias de originalidade. Alegorias imensas, impactantes, verdadeiras esculturas de memória. Sidnei França assinou um trabalho criativo e corajoso e consolidou seu nome na Sapucaí. A verde e rosa pareceu respirar novidade sem perder tradição. Mangueirenses transbordaram alegria. Eu também.
Mestre Sacaca, o doutor da floresta, curandeiro, marabaixeiro, guardião dos saberes ancestrais, surgiu ali como símbolo de uma Amazônia negra viva e resistente. No último carro, mais de trinta familiares. Esposa, filhos, netos, bisnetos. Não existiu olhar seco naquela hora. A emoção tomou conta da avenida inteira.

Ver sua trajetória cantada na Sapucaí foi como assistir à memória do meu povo alcançar o Olimpo do Carnaval.
Quando a voz de Patrícia Bastos ecoou na introdução e os versos de Joãozinho Gomes ganharam o ar carioca, senti que a distância entre Rio e Amazônia deixou de existir. Era uma só estação. A Estação Primeira do Amapá.

Houve também visão de futuro. O apoio cultural do Governo do Amapá levou investimento, abriu caminhos para o turismo e economia amapaense. O mundo olha, sente curiosidade, deseja conhecer. O visitante chega. O artesão vende. O guia trabalha. A cidade se move. Cultura também alimenta.
Mas existe algo maior que números.

Orgulho. O Amapá cruzou o país para contar sua própria história.
O amapaense se reconheceu. O Brasil descobriu que o Amapá não é canto esquecido no mapa. É potência cultural. É história pulsante. É floresta que cura. É identidade gigante.
A amazônia negra passou na Avenida do Samba. Uma madrugada para nunca esquecer. Ali, o Amapá foi não somente meio do Mundo, mas o planeta inteiro.

Fiquei louco. Me misturei ao povo do Rio, ao povo do mundo e ao povo da minha terra tucuju. Todos juntos sob o mesmo canto. Quando a Mangueira passou, mostrou que o Carnaval também serve para isso: lembrar quem somos.
E eu fui profundamente feliz. É isso!
Elton Tavares – Escritor, jornalista e amante do Carnaval há quase 50 anos.



