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A Doutrina Don-roe e o Crepúsculo da Autonomia na América Latina

Daniel Santiago Chaves Ribeiro – É professor da Universidade Federal do Amapá, atuando nas áreas de História Contemporânea, Inovação e Política Internacional.

A operação militar dos Estados Unidos em janeiro de 2026, que resultou na extração forçada de Nicolás Maduro, como o evento definitivo que encerra os paradigmas do pós-Guerra Fria no Hemisfério Ocidental. Esta ação, longe de ser um incidente isolado, cristaliza a “Doutrina Don-roe” — uma fusão do nacionalismo econômico de Donald Trump com uma reinterpretação agressiva da Doutrina Monroe. O argumento central que aqui expomos é que a hegemonia baseada no consenso e nas instituições foi substituída por uma dominação baseada na coerção e no controlo de recursos estratégicos.

Nossa análise situa a crise atual no cruzamento de três tendências históricas. A década de 1990 foi marcada por uma ilusão de convergência democrática e neoliberal (Cimeira de Miami, 1994), que falhou em reduzir desigualdades estruturais. O ponto de inflexão ocorreu com o 11 de setembro de 2001, quando a prioridade dos EUA se deslocou para a Guerra ao Terror, tratando a América Latina com uma “negligência benigna” e focando apenas em ameaças securitárias (drogas, terrorismo).

Este vácuo estratégico permitiu a expansão silenciosa da China, que ofereceu financiamento sem condicionalidades políticas, e o ressurgimento da Rússia como um perturbador estratégico. Paralelamente, o colapso das instituições regionais (como a UNASUL e a irrelevância da OEA) criou um “multilateralismo de trincheira”, deixando a região institucionalmente órfã e incapaz de mediar crises, pavimentando o caminho para o unilateralismo norte-americano.

Funda-se assim, neste contexto, uma Nova Gramática de Poder A Doutrina Don-roe introduz o conceito de “Soberania Funcional”. Neste novo paradigma, a soberania nacional deixa de ser um direito inerente e inviolável, tornando-se uma condição revogável. Um Estado só mantém a sua soberania se cumprir funções específicas alinhadas aos interesses de Washington: garantir o fluxo de recursos (petróleo) e controlar ameaças (migração).

A intervenção é descrita como explicitamente transacional e mercantilista. A Venezuela é vista não como uma democracia a ser restaurada, mas como um ativo energético a ser gerido. O controlo das maiores reservas de petróleo do mundo é tratado como uma questão de segurança nacional para os EUA, visando negar esse recurso à China e garantir o abastecimento ocidental. A preferência por cooptar figuras pragmáticas do antigo regime em detrimento da oposição democrática tradicional revela que a estabilidade e a obediência se sobrepõem ao respeito à legitimidade democrática.

A Instabilidade da Era Tripolar aponta que crise deve ser observada, justamente, sob a ótica da tripolaridade (EUA, China, Rússia), considerada inerentemente mais instável que a bipolaridade da Guerra Fria. Os EUA tentam reverter o declínio relativo através da força militar e supremacia cultural; A China utiliza o poder econômico e infraestrutural como alavanca geopolítica. A intervenção dos EUA visa anular os contratos chineses na Venezuela, o que pode levar Pequim a retaliar noutros frentes econômicos na região; A Rússia atua através de guerra assimétrica e apoio a regimes hostis para criar custos aos EUA. Sem Maduro, Moscou perde uma plataforma estratégica, mas pode financiar insurgências para transformar a Venezuela num atoleiro para as forças americanas .

Do ponto de vista prático, projetam-se consequências severas e imediatas. A Venezuela apresenta forte risco de fragmentação interna, com milícias e setores não cooptados a iniciar campanhas de sabotagem. O resultado provável não é uma democracia vibrante, mas um estado semifuncional sob tutela americana, onde a estabilidade é comprada à custa da tolerância com redes criminosas não hostis. Quanto a Cuba, a queda de Maduro representa uma ameaça existencial. O fim do petróleo subsidiado pode colapsar a rede energética da ilha, levando a protestos massivos e instabilidade que os “falcões” em Washington desejam explorar. Na Colômbia, o governo de Gustavo Petro encontra-se numa posição precária, pressionado pela retórica agressiva dos EUA e pelo transbordamento da instabilidade vizinha (refugiados, grupos armados).

Em vias de conclusão, apontamos para a metáfora do “crepúsculo da autonomia” latino-americana. A estratégia de Não-Alinhamento Ativo torna-se inviável, pois a Doutrina Don-roe elimina o espaço para a neutralidade, forçando uma bifurcação regional: o norte (Caribe/América Central) integrado à força na esfera de segurança dos EUA, e o sul tentando, com dificuldade, manter laços com a China. Tudo leva a crer que um sentimento antiimperalista, em curto prazo, fortalecerá o ressurgimento do “Nacionalismo de Recursos” como mecanismo de defesa de soberania e a transformação de elementos que deveriam ser de governança ampla e compartilhada, mas ao invés, transformam-se em armas de guerra híbrida onde fluxos da mais variada ordem passam a ser usados tanto para desestabilizar os EUA quanto como moeda de troca diplomática. Comparado com anseios históricos de coesão, cooperação e consenso, a região caminha, assim, para um futuro de fragmentação, sobrevivência vigiada e erosão das instituições multilaterais – ao menos do ponto de vista de um relacionamento hemisférico mais amplo.

Daniel Santiago Chaves Ribeiro – É professor da Universidade Federal do Amapá, atuando nas áreas de História Contemporânea, Inovação e Política Internacional.

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