A intervenção americana na Venezuela e o respingo nas Guianas

Por Gutemberg de Vilhena Silva, pesquisador e especialista em Amazônia.
A notícia de que os Estados Unidos realizaram ataques em território venezuelano e capturaram Nicolás Maduro não pode ser lida como um episódio isolado ou meramente bilateral. Trata-se de um evento de alto impacto geopolítico que reabre, de forma abrupta, a histórica caixa-preta das intervenções externas na América do Sul, projetando instabilidade imediata sobre a região das Guianas — uma das áreas mais sensíveis, híbridas e estratégicas do continente. Quando uma potência extrarregional cruza a fronteira de um Estado soberano para remover seu chefe de governo, o efeito imediato é a produção da incerteza política: quem exerce o poder, com que legitimidade, por quanto tempo e sob qual capacidade real de controle territorial. Esse vazio institucional tende a ser rapidamente ocupado por forças armadas fragmentadas, grupos irregulares e redes econômicas paralelas. Em regiões de fronteira extensa, baixa densidade estatal e intensa circulação transfronteiriça — como ocorre nas Guianas — esse tipo de choque gera efeitos de borda quase automáticos, ultrapassando rapidamente as fronteiras formais.
Esse cenário é ainda mais explosivo porque se insere em um contexto já marcado por disputas territoriais latentes e recursos estratégicos em disputa. A fronteira oriental da Venezuela permanece tensionada pela histórica controvérsia com a República da Guiana sobre a região do Essequibo, uma área rica em recursos minerais e hoje revalorizada pela proximidade com as grandes descobertas de petróleo offshore guianenses. A instabilidade política em Caracas tende, portanto, a reativar narrativas nacionalistas, movimentos militares e disputas diplomáticas em torno desse território, ampliando o risco de escalada regional.
Ao mesmo tempo, a corrida pelo petróleo na costa marítima das Guianas — especialmente na República da Guiana e no Suriname — adiciona um novo vetor de tensão. A consolidação dessas áreas como fronteira energética global reposiciona a região no tabuleiro geopolítico internacional, atraindo interesses de grandes potências, empresas transnacionais e alianças estratégicas. Qualquer instabilidade prolongada na Venezuela tende a contaminar esse ambiente, seja por pressões militares indiretas, seja por disputas sobre segurança marítima, rotas logísticas e controle das zonas econômicas exclusivas.Para os países vizinhos da Venezuela, esse contexto projeta ao menos quatro ondas principais de risco.
1. Pressão migratória e humanitária
Crises venezuelanas anteriores já transformaram profundamente os fluxos populacionais e as dinâmicas socioeconômicas das cidades-gêmeas fronteiriças. No eixo Brasil–Venezuela, isso se materializa em Pacaraima e Santa Elena de Uairén; nas Guianas, tende a pressionar rotas fluviais e costeiras menos monitoradas. Uma intervenção externa amplia deslocamentos forçados, sobrecarregando serviços públicos, sistemas de saúde e mecanismos locais de governança.
2. Reconfiguração das economias ilegais e agravamento ambiental
Em contextos de colapso institucional, redes ilegais se reorganizam com rapidez. Ouro, combustível, logística clandestina e exploração de pessoas passam a circular com maior intensidade. O sistema garimpeiro das Guianas — já altamente capilarizado, hierarquizado e transfronteiriço — tende a se expandir em cenários de instabilidade, elevando o desmatamento, a contaminação por mercúrio e a pressão sobre territórios indígenas e áreas protegidas
3. Militarização das fronteiras e risco de incidentes diplomáticos
A redefinição forçada de “linhas vermelhas” costuma produzir respostas defensivas: reforço militar, fechamento seletivo de fronteiras e aumento do controle sobre circulação de pessoas e mercadorias. Na região das Guianas, onde infraestrutura, abastecimento e mobilidade dependem fortemente de corredores transfronteiriços, esse processo pode gerar rupturas logísticas e tensões diplomáticas de difícil reversão.
4. Intensificação da disputa por recursos estratégicos
A Venezuela continua sendo um ator central na geopolítica energética. Quando uma intervenção externa passa a ser interpretada como associada direta ou indiretamente a interesses petrolíferos, a região entra em um “modo de suspeita estratégica”. Isso afeta investimentos, cooperação regional e a própria governança ambiental e marítima, pressionando os Estados das Guianas a se posicionarem em um ambiente cada vez mais polarizado.
O que torna esse quadro particularmente sensível é o fato de que a região das Guianas não é um vazio geopolítico. Trata-se de uma macrorregião de altíssimo valor estratégico, que combina biodiversidade global, grandes reservas minerais, novas fronteiras energéticas, corredores logísticos amazônicos e a presença de um território ultramarino europeu. Ao mesmo tempo, é uma região historicamente marcada por circulações humanas, econômicas e culturais que não se submetem facilmente às fronteiras estatais formais.
No curto prazo, a palavra-chave é prudência estratégica. Isso implica ampliar o monitoramento de fronteiras, preparar respostas humanitárias coordenadas, proteger infraestruturas críticas — inclusive energéticas e portuárias — e, sobretudo, manter canais diplomáticos ativos para evitar que a crise venezuelana se projete de forma descontrolada sobre o arco guianense e amazônico. Porque, quando a soberania se torna um precedente contestado, os primeiros a pagar o preço raramente são os centros de poder global — são as bordas: cidades fronteiriças, povos indígenas, comunidades ribeirinhas e territórios onde o Estado já opera no limite de sua capacidade.



