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Mestre Sacaca: 100 anos do guardião da floresta e da cultura amapaense

No centenário de nascimento de Raimundo dos Santos Souza, o Amapá celebra o legado do curandeiro, marabaixeiro e defensor dos saberes tradicionais que levou a cultura amazônica ao reconhecimento nacional.

Há pessoas cuja história não cabe apenas em uma biografia. Elas se confundem com o lugar onde nasceram, com a cultura que ajudaram a preservar e com a memória coletiva de um povo. Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, pertence a essa categoria. Nesta sexta-feira, 21 de agosto, o Amapá celebra o centenário de nascimento de uma de suas figuras mais emblemáticas, cuja trajetória permanece viva entre as plantas medicinais, as caixas de marabaixo, o carnaval e os conhecimentos ancestrais da Amazônia.

Nascido em Macapá, em 21 de agosto de 1926, quando a região ainda integrava o Pará, Sacaca construiu uma relação profunda com a floresta desde a infância. Orientado pela mãe e movido pela curiosidade, aprendeu a identificar ervas, raízes e plantas utilizadas na medicina popular. Desse contato nasceu um conhecimento que atravessaria gerações e transformaria seu nome em referência no Amapá.

Em um período marcado pelas dificuldades de acesso a medicamentos e atendimento médico, Mestre Sacaca se tornou conhecido por acolher pessoas que buscavam alternativas de cuidado. Chás, garrafadas e preparos à base de plantas faziam parte de um repertório construído pela experiência, pela observação e pela transmissão oral dos saberes tradicionais.

O reconhecimento como “doutor da floresta” nasceu justamente dessa capacidade de compreender a natureza e compartilhar conhecimentos com a população. Para Sacaca, a floresta não era apenas paisagem: era fonte de aprendizado, memória e identidade.

Sua trajetória também ajuda a compreender a importância dos conhecimentos acumulados pelas comunidades amazônicas. Muito antes de termos como biodiversidade, sustentabilidade e bioeconomia ganharem espaço no debate público, ele já demonstrava que a riqueza da floresta também está na sabedoria de quem conhece seus ciclos, respeita seus recursos e preserva suas tradições.

Mas reduzir Mestre Sacaca à medicina popular seria ignorar outras dimensões de sua história. Ele também foi uma personalidade marcante da cultura amapaense, com presença constante no marabaixo, no carnaval e nas iniciativas de valorização da identidade negra.

Tocador de caixa e artesão de instrumentos, ajudou a manter vivas manifestações que expressam a resistência e a ancestralidade do povo amapaense. Participou da fundação da União dos Negros do Amapá e também esteve ligado à criação da primeira associação de idosos do estado. 

No carnaval, tornou-se um personagem inesquecível. Por mais de duas décadas, foi Rei Momo e participou de uma das celebrações populares que mais ajudaram a projetar sua imagem para além do universo das plantas medicinais. Sua história revela alguém capaz de reunir, em uma mesma trajetória, conhecimento, alegria, tradição e compromisso comunitário.

Mestre Sacaca também atuou na comunicação. Na década de 1990, participou do programa “A Hora do Campo”, na Rádio Difusora de Macapá, onde apresentava informações sobre as propriedades tradicionalmente atribuídas às plantas. Publicou ainda três livros sobre o tema, contribuindo para registrar conhecimentos que, durante muito tempo, circularam principalmente pela oralidade.

Outra parte importante de sua trajetória está ligada à preservação ambiental. Ele foi fundador e primeiro funcionário do antigo Parque Florestal de Macapá, atualmente conhecido como Bioparque da Amazônia. A atuação reforça o perfil de um homem que compreendia a floresta como espaço de vida, cultura e aprendizado.

Seu legado também permanece no Museu Sacaca, em Macapá. Vinculado ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, o espaço se consolidou como referência na aproximação entre ciência, memória e saberes tradicionais.

Ao reunir elementos da vida indígena, ribeirinha e extrativista, o museu traduz uma das principais lições deixadas por Sacaca: o conhecimento produzido na Amazônia não pode ser separado das pessoas que vivem nela. Preservar esse patrimônio significa reconhecer comunidades, valorizar suas experiências e garantir que suas histórias não sejam esquecidas.

O reconhecimento acadêmico chegou em 2021, quando a Universidade Federal do Amapá concedeu a Mestre Sacaca, de forma póstuma, o título de doutor honoris causa. A homenagem representou mais do que uma distinção simbólica: afirmou que o saber popular também produz conhecimento e merece respeito dentro dos espaços científicos e educacionais.

No ano de seu centenário, a história do amapaense ganhou uma dimensão ainda maior. No Carnaval de 2026, a Estação Primeira de Mangueira levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju — O Guardião da Amazônia Negra”, apresentando ao Brasil a trajetória do homem que transformou a floresta em referência de cultura, ancestralidade e identidade.

A homenagem projetou nacionalmente as tradições afro-indígenas do Amapá e mostrou que a Amazônia é formada também por histórias, ritmos e conhecimentos que precisam ocupar os grandes espaços de visibilidade do país. Desfile da Mangueira no Carnaval de 2026

Mestre Sacaca morreu em 1999, mas sua história continua presente no cotidiano amapaense. Está no conhecimento das ervas preservado pelas famílias, nas rodas de marabaixo, nas lembranças do carnaval e nas instituições que mantêm viva a memória da floresta e de seus povos.

Celebrar seu centenário, portanto, é reconhecer a importância de quem ajudou o Amapá a compreender a própria identidade. Também é assumir o compromisso de preservar a cultura popular, proteger a biodiversidade e respeitar os conhecimentos construídos pelas comunidades tradicionais.

Cem anos depois de seu nascimento, Mestre Sacaca permanece como símbolo de uma Amazônia que pensa, ensina, celebra e resiste. Sua maior herança talvez seja justamente esta: mostrar que a floresta tem voz — e que essa voz continua viva na memória do povo amapaense.

*Redação – Portal Amapá News

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