Arte e Cultura

Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum

Mostra segue até 1º de julho, com peças feitas a partir de matéria orgânica do solo amazônico seguindo conhecimentos e práticas indígenas e africanas

Está em cartaz, na Sala do Artista Popular do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), a exposição Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum, inaugurada no dia 30 de abril. A mostra apresenta pela primeira vez no Museu de Folclore Edison Carneiro essa tradição do Amapá, hoje perpetuada por 26 pessoas, a maior parte mulheres, que vivem num conjunto de 16 vilas no distrito rural de Maruanum, a 80 km de Macapá. De complexa realização, Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum une o Iphan e o Instituto Federal do Amapá (IFPA) em sua consolidação. A entrada é franca. A visitação, que vai até 1º de julho, é de terça a sexta-feira, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.

Fotos de Oscar Liberal e Juliana Santana
Fotos de Oscar Liberal e Juliana Santana

A antropóloga Ana Carolina Nascimento é a autora da pesquisa de campo em Maruanum, realizada em outubro de 2025. Todo o registro culmina com o texto do catálogo da exposição. Na abertura, dia 30 de abril, Ana Carolina, que é Coordenadora de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP/Iphan, fez a mediação da roda de conversa em torno da mestra Marciana Dias, de 85 anos, guardiã desse fazer ancestral, e da louceira Castorina Silva e Silva, em conjunto com a pesquisadora Céllia Costa e do Reitor Romaro Silva, ambos do IFAP. Também participaram as representantes da Fundação Marabaixo, Rosyeila da Silva Coutinho e Ísis Tatiane dos Santos.

Fotos de Oscar Liberal e Juliana Santana

Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum amplia um olhar sobre o Brasil profundo. “A arte das louceiras envolve conhecimentos tradicionais sobre a biodiversidade amazônica no uso de matérias-primas essenciais para a feitura deste tipo de louça: o barro, as cinzas obtidas da queima da casca da árvore chamada de caripé ou caraipé (Licania scabra), e a jutaicica, resina vegetal extraída do jutaieceiro ou jatobá (Hymenea courbaril)”, esmiúça Ana Carolina. A antropóloga e o fotógrafo Francisco Moreira da Costa passaram uma semana acompanhando todo o processo de feitura das cerâmicas em Maruanum.

Registro da pesquisa de campo para a exposição. Foto de Francisco Moreira da Costa
Registro da pesquisa de campo para a exposição. Foto de Francisco Moreira da Costa

Segundo a antropóloga, os conhecimentos de toda a elaboração das louças formam um complexo sistema. “É um complexo sistema de que fazem parte também as relações com a natureza e seus donos – seres que controlam os domínios da água, da caça e do barro –, e com os quais há regras de convívio. Há uma série de cuidados e restrições a serem obedecidos para fazer as louças, especialmente na retirada do barro e na queima. O momento ritual mais importante da feitura das louças acontece após a retirada do barro, em que as mulheres modelam pequenas peças e as depositam no buraco de onde retiraram o barro, em oferecimento à mãe do barro, ou vovó do barro. Agradecem, pedem proteção para a queima e cantam ladrões (versos) de marabaixo.” 

Expressão cultural do Amapá, as louças de Maruanum integram crenças e rituais na perspectiva indígena e africana, como enfatiza a pesquisadora Céllia Costa, do IFAP, figura central para a exposição se tornar realidade no Rio. Desde 2011, a estudiosa acompanha e desenvolve iniciativas de preservação, em conjunto com as artesãs. No mestrado de Direito Ambiental e Políticas Públicas da Universidade Federal do Amapá (Unifap), em 2012, estudou os saberes das louceiras, no âmbito do princípio intergeracional, que é o direito que a comunidade tem de repassar seus conhecimentos para a atual e as futuras gerações. “Eu comecei a viver o Maruanum desde então”, conta. 

Em 2016, na continuidade da pesquisa de mestrado, passou a desenvolver uma análise voltada para a questão de uma estratégia educacional para a transmissão de conhecimento pelo viés pedagógico em seu doutorado na PUC-PR. “A partir de 2020, me tornei ainda mais uma agente cultural e de políticas públicas, por meio de um grupo de pesquisa que eu coordeno, o Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais, o CEMADERE. Assim, se torna possível promover ações de educação patrimonial e políticas públicas para a comunidade”, contextualiza.

Alguns pesquisadores se preocuparam com possível risco de extinção do ofício. Atualmente, há expectativa de renovação. “O ofício é histórica e majoritariamente feminino. Na pesquisa de campo tivemos notícias de 26 pessoas que sabem fazer a louça do Maruanum atualmente, sendo 20 mulheres, 2 homens e 4 crianças (sendo 2 meninas e 2 meninos). Dentre os homens, 1 deixou de fazer porque enfrentou a quebra de diversas das suas peças, e 1 não publiciza o ofício, por ter vergonha de ser um homem fazendo a louça. O orgulho dos meninos que encontramos lá nos leva a imaginar uma possível ampliação de gênero no futuro da louça do Maruanum”, analisa Ana Carolina.

Foram necessários quase 15 anos para a viabilidade da mostra. A sazonalidade da produção, que depende da obtenção do caripé, uma das matérias-primas, está entre as razões para o longo tempo. A logística foi outro fator importante. De Macapá, foram enviadas as embalagens para as 208 peças serem preparadas e entregues à transportadora. Esta é a SAP de número 216, desde 1983 apresentando arte pópular de todo o país. Peças que são vendidas no Espaço de Comercialização do Museu de Folclore, com arrecadação inteiramente revertida para os criadores.

“Está sendo uma grande realização fazer essa exposição. Apesar do Maruanum ser próximo à Macapá, há dificuldades de transporte entre as vilas da comunidade e dispêndio no transporte das louceiras para a capital. Assim, só contando com a parceria da pesquisadora Célia Costa, do Instituto Federal do Amapá, pudemos fazer chegar até lá o material para embalagem das peças, e para coletar as peças na comunidade e levar até a transportadora. Atualmente, a louça é comercializada através de encomendas diretas com as louceiras, que residem no Maruanum e em Macapá, e só há um ponto de venda fixo, que é a Casa do Artesão Amapaense. Parte das louceiras participa, eventualmente, de feiras de artesanato em Macapá, e tiveram oportunidades pontuais de venda em feiras de artesanato de outros estados. Assim, consideramos de grande importância apresentar a louça do Maruanum ao nosso público e abrir este ponto de venda no Rio de Janeiro”, explica Ana Carolina.

Acesse aqui a versão online do catálogo:

Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum

Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum

Abertura dia 30 de abril, às 17h.

Período: 30 de abril a 1º de julho

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179. Catete – RJ. Tel. 21 3032.6052

Dias e horários de visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h 

Entrada franca

Realização: Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec) | Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio e Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan). Parceria: Instituto Federal do Amapá.

Fonte: Assessoria de Imprensa da SAP

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