Mulheres negras, lideranças e instituições participam do III Seminário Aquilombar no combate às desigualdades

Entre cantos, ancestralidade e a força de mulheres que há décadas sustentam lutas coletivas, o auditório do Museu Sacaca tornou-se, nesta sexta-feira (19), um território de memória, resistência e construção de caminhos. O “III Seminário de Mulheres Negras – Aquilombar” reuniu representantes de movimentos sociais, comunidades tradicionais, instituições públicas, pesquisadoras e lideranças femininas para debater direitos, políticas públicas e o enfrentamento às desigualdades que atingem, de forma mais severa, as mulheres negras.
A abertura do encontro foi marcada pela apresentação musical da cantora Mayara Braga e pela reafirmação do compromisso institucional do Ministério Público do Amapá (MP-AP), por meio do Centro de Apoio Operacional da Cidadania (CAO-Cidadania), realizador do evento, ao lado da Universidade Federal do Amapá (Unifap), do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Fonsanpotma) e do Instituto Afro-Brasileiro Imaculada Conceição.

Mais do que sediar debates, o seminário propôs escuta. Inspirado na experiência histórica dos quilombos, o “aquilombar” foi apresentado como prática de acolhimento, proteção e ação coletiva.
Em sua mensagem de abertura, o procurador-geral de Justiça do MP-AP, Alexandre Monteiro, destacou que a proteção às mulheres negras exige respostas específicas e sensíveis às desigualdades históricas. “As mulheres negras são as principais vítimas de violência doméstica, feminicídio, violência obstétrica e mortalidade materna. Nós precisamos, enquanto instituição, ter um olhar diferenciado para este público. O Ministério Público atua de forma decisiva promovendo acolhimento, combatendo o racismo institucional, fiscalizando e induzindo políticas públicas”, disse.
Em seguida, o promotor de Justiça Paulo Celso Ramos conduziu um momento simbólico da programação: a homenagem a mulheres que têm contribuído para manter viva a luta antirracista e o fortalecimento dos povos tradicionais de matriz africana. Sem a formalidade de uma mesa de autoridades, o gesto reconheceu trajetórias construídas no cotidiano da militância, da educação, da espiritualidade e da defesa de direitos.

Ao destacar o propósito do seminário, Paulo Celso ressaltou que o encontro é um espaço de construção coletiva: “Eventos como este são extremamente importantes porque conseguem reunir lideranças, instituições e a academia em torno de temas sensíveis para a sociedade. É um momento de diálogo para pensarmos estratégias capazes de tornar efetivos os direitos fundamentais dos povos tradicionais e garantir o pleno exercício da cidadania”.
Professor da Unifap e um dos coordenadores da iniciativa, Vinicius Freitas explicou que o seminário nasceu em 2019, motivado por casos de intolerância e racismo religioso registrados no estado. “Nós procuramos o Ministério Público para desenvolver políticas públicas a esse respeito. Retomamos essa parceria para promover escuta, ações de intervenção e dar visibilidade às populações que têm sofrido preconceito e intolerância religiosa”.
Segundo ele, a universidade compreende o espaço como instrumento de transformação social: “Hoje estamos no terceiro Aquilombar para ouvir mulheres negras e desenvolver ações concretas voltadas ao respeito à população negra do Amapá”.
Fé, território e protagonismo

A programação seguiu com três palestras que dialogaram entre si a partir das experiências das mulheres negras, com mediação da Mãe Carmem de Oyá, também coordenadora do evento, que definiu o significado de Aquilombar: “É um encontro de resistência, afeto e cuidado. Esse reconhecimento não é individual; ele carrega a força de milhares de mulheres que vieram antes de nós e abriram os caminhos para que hoje estivéssemos aqui”.
Com o tema “Sagradas Águas Femininas: corpo, fé e ancestralidade negra”, a professora e ativista Adriana de Omolu refletiu sobre a espiritualidade como expressão de resistência histórica: “Nossa fé está calcada na nossa ancestralidade. É uma forma de manter viva a memória daqueles que resistiram ao processo escravagista e de lutar pelo direito à existência com dignidade”. Ela lembrou que o lema da campanha nacional conduzida pelo Fonsanpotma traduz esse compromisso: “Todas as mulheres são águas e todas as águas são sagradas”.
Na sequência, a professora-doutora Piedade Videira abordou o tema “Aquilombar no Território Amapaense: entre marabaixos, quilombos e o território aquilombar como força coletiva no Amapá”, provocando reflexões sobre inserção social e participação política: “Quero provocar a reflexão para nos enxergarmos enquanto populações negras: onde estamos e quais espaços promovem, de fato, protagonismo e melhoria da nossa qualidade de vida. Precisamos traçar estratégias coletivas para alcançar nossos sonhos”.

Encerrando o ciclo de palestras, a sacerdotisa Itanajara de Oxum Almeida falou sobre “Aquilombamento no Brasil: ancestralidade, luta e o protagonismo das mulheres negras”. Enquanto mulheres negras, nos colocamos em lugares de protagonismo para incentivar, mobilizar e trazer junto aquelas que ainda não tiveram oportunidade de se reconhecer nesse lugar de fala. É a circularidade e a coletividade que nos fortalecem”, ressaltou.
Compromisso que continua
O seminário foi encerrado com conversas abertas com o público, entrega de certificados e a reafirmação de que o debate não termina com o fim da programação.
“O enfrentamento ao racismo e às desigualdades exige presença institucional, diálogo permanente e ações concretas capazes de transformar direitos previstos na lei em proteção efetiva para a vida das mulheres negras do estado. Esta foi a terceira de muitas ações afirmativas que virão”, finalizou o promotor de justiça Paulo Celso Ramos.
Fonte: MP-AP



